Alto rendimento é pra maluco, diz brasileiro na maratona

Como as pedras que há séculos emolduram os monumentos e a fé de Jerusalém, Ronaldo quer reconstruir seu caminho, tijolo e tijolo.

Ronaldo da Costa ajudava os pais na lavoura em Descoberto (MG) na infância, mas foi ao trabalhar em uma olaria da prefeitura, fazendo tijolos, que descobriu o que mudaria sua vida: o atletismo. Passou a correr aos 17 anos em uma prova organizada pelo município de cerca de 4 mil habitantes. A partir dali, deu a volta no planeta e conquistou o mundo.

Aos 45 anos, o mineiro de sorriso fácil está prestes a voltar a correr. Não os 42 km da maratona, prova na qual foi recordista mundial em 1998 –único sul-americano da história a atingir tal feito, com o tempo de 2h06min05.

Nesta sexta-feira (18), a partir das 7h (2h de Brasília), Ronaldinho, como passou a ser carinhosamente chamado, vai correr os 5 km da Maratona de Jerusalém, em Isarael –que conta com provas de 10 km e 21 km também.

Ele é convidado do Ministério do Turismo de Israel. Na cidade que abriga alguns dos locais mais sagrados das três principais religiões monoteístas do mundo: judaísmo, cristianismo e islamismo, Ronaldo diz que "nem macumbeiro nem nada é". Mas fé em dias melhores ele tem.

Não precisa bater mais recordes mundiais. Ele só quer concluir a faculdade de Educação Física, uma maratona que começou há quatro anos quando voltou a trabalhar e iniciou o Ensino Médio.

Como as pedras que há séculos emolduram os monumentos e a fé de Jerusalém, Ronaldo quer reconstruir seu caminho, tijolo e tijolo.

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Folha - Como está sua vida hoje??

Ronaldo da Costa - Eu trabalho no Instituto Joaquim Cruz, como assistente de treinador do professor Fábio Santos. Estou lá há quatro anos e ajudo no treino de 16 atletas de 15 a 22 anos em Ceilândia (DF), do lado de Águas Lindas, onde moro. Lá estou terminando minha casa. Duro pagar aluguel e o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) meu e da minha mulher [Edileusa], que está segundo ano [e ele no primeiro, da Uniplan].

O que estava fazendo antes?

Há quatro anos não estava fazendo nada, lá na minha cidade [Descoberto], vivia daquilo que eu tinha. E com minha filha Vitória, que tem 16 anos [fruto do primeiro casamento dele, com Lucilia].

Como foi correr os 10.000 m na Olimpíada de Atlanta-96?

Lembro de me ver no telão e os caras grudados no meu cangote. Eu estava bem preparado, mas senti uma dor na lombar. Dei azar, cai com Haile [Gebrselassie, ouro] e Paul Tergat [prata], não passei da classificatória.

E porque não conseguiu ir a outras Olimpíadas?

Depois da Olimpíada de Atlanta eu queria correr maratonas. Mas tinha dores, lesão e problemas com a primeira mulher, a Carla. Era brava. Até o recorde mundial em 1998 eu tinha feito só uma maratona, em Berlim [1997]. Cheguei em quinto mas achei que tinha ganhado a corrida. Não vi os caras. Me preparei melhor e, em 98, a ideia era bater o recorde brasileiro e sul-americano [que até hoje são dele].

Por que bateu o recorde?

Quando você está preparado, como eu estava, quase três meses de treino, você pensa que tudo é possível, não pensa no recorde mundial, porque é muita pressão, mas tudo é possível. No dia deu tudo certo. Dormi bem, levantei bem, estava feliz.

Por que nenhum brasileiro quebrou seu recorde ainda?

Temos talento, precisamos lapidar. Não adianta pensar em bater recorde. Precisa ter professores capacitados. Não estou generalizando, mas a maioria tem outra visão. Atletismo não é tão difícil assim. Eu saí de um buraco, de uma cidade pequenininha, de 3 mil habitantes, e bati o recorde mundial, ganhei a São Silvestre, ganhei medalha em um Pan-Americano [bronze em Mar del Plata-1995 nos 10.000 m]. E saí do nada. Se tiver professor com interesse e os governantes pararem com essa roubalheira, dá certo. Mas quando tem política no meio do esporte acaba atrapalhando.

Você diz que saiu do nada. Como foi ficar famoso?

Trabalhei com meus pais na lavoura, plantando arroz, milho, feijão. Não foi ruim, não. Uma infância boa. Trabalhei com eles até os 17. Depois eu trabalhei na Olaria, fazia tijolos, na prefeitura. Tudo é passageiro. Precisa saber viver o momento. Eu consegui aproveitar o meu depois do recorde mundial. Dinheiro é bom, mas não é tudo. O que fica é essa história. Não vou dizer que não ganhei muito dinheiro. Mas fui sacaneado também, por querer confiar. Não vou citar nomes, mas sou uma pessoa muito dada. Quando você vem de uma família que não é muito estruturada, você confia.

E depois do atletismo, o que ficou para você?

A vida não terminou para mim, não. A vida continua, o esporte acaba como alto rendimento. Quem tem pena é galinha. Não sou galinha. Tenho que correr atrás.

Sua vida mudou várias vezes...

Mudou muito depois de 1998. Minha filha nasceu, quase fui preso. Aquela história da carteira de motorista falsa [foi flagrado em blitz]. Era falsa. Eu sabia? Não sei. Não fui preso. Saiu até no Jornal Nacional. Gastei muito com advogado. Foi em 99. Estava separando da primeira mulher. Tudo embolou.

Mas você continuou competindo...

Depois de 98 eu estava enganando. Não era atleta. Até 2006 não era atleta. Eu não queria mais saber de atletismo. Não era pelo dinheiro. Uma hora, chega, basta, não queria mais. Tinha contratos mas tava cansado. Eu não ligava para ser famoso. Perdi boa parte do dinheiro, mas também fiz investimentos errados, em imóveis, deu errado. Hoje tenho uma casa, a que estou construindo e um carrinho. Estou bem. Não posso reclamar de nada, tenho que trabalhar.

E não corre mais maratonas?

Alto rendimento não é saúde, não. É pra maluco. Tenho pena de ver os atletas na pista. Mas faz parte. Tem que ter cobrança neles.

Este ano completam-se 18 anos do recorde.

Dezoito anos passam rápido. O Brasil é complicado. Tem que estar num grande centro como São Paulo ou Rio. Se não, acaba sendo esquecido. Mas não fico preocupado. Hoje só quero terminar meus estudos. Meu lazer era treinar, treinar, treinar. Parei na oitava série e achei que nunca mais ia voltar a estudar na minha vida.

Você se sente esquecido?

Fiquei triste porque não tinham convidado para carregar a tocha até hoje [Ronaldo acabara de mostrar, na terça-feira, mensagem que o convidava para ser um dos condutores da chama olímpica]. Fiquei triste, mas recebi a notícia boa aqui. Pessoal do Bradesco já mandou e-mail. Esses metros com a tocha vão ser uma maratona para mim".

E as chances do atletismo do Brasil nos Jogos do Rio?

É uma pena, fico triste. É pouca chance. Investimento tem. Está tendo dinheiro. É pegar as pessoas certas, não as que caem de paraquedas. Eu vou lá, comprei ingresso para dois dias do atletismo. Quero ver Usain Bolt. Torcer para aparecer algum brasileiro. Mas é muito pouco o que temos. Atletismo é base de tudo, não pode ser assim.

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